Por que gostamos ou não de alguém?

por que gostamos de alguem

Todo mundo já passou por isso: conhecer alguém e imediatamente se sentir “apaixonado” por esta pessoa e, em outras ocasiões, ser apresentado a um indivíduo e não ver a hora de sumir da frente de quem nos foi apresentado.

 

Certos assuntos em psicanálise, principalmente para quem sabe um pouco sobre o tema, podem parecer óbvios e até mesmo desnecessários. Porém, quando pergunto às pessoas o que elas acham sobre isso ou aquilo e depois explico o mecanismo psíquico que faz com que as pessoas ajam assim ou assado, elas acabam se surpreendendo e, invariavelmente, acabo escutando um: “sabe que eu nunca tinha pensado nisso?”

Portanto, mesmo correndo o risco de cair no lugar comum, de falar o que “todos” já sabem, vou dedicar este artigo a tentar explicar de forma simples por que queremos estar ao lado de algumas pessoas e, no que diz respeito a outras, gostaríamos mesmo e de vê-las atropeladas por um caminhão, mesmo que não admitamos isso nem para nós mesmos.

Segundo Freud, a base de nossos relacionamentos adultos, sejam eles com quem amamos, ou criamos laços de amizade e até mesmo nossos colegas de trabalho, é formada durante a infância, quando atravessamos o Complexo de Édipo. Se ele ocorre normalmente, e vamos usar como exemplo um menino, o que perceberemos é que ele se afeiçoa pela mãe e passa a ver no pai alguém capaz de lhe roubar a atenção dela, ou seja, um rival.

Durante a entrada até a saída do Édipo e sua passagem para o período de latência, o menino ora se relaciona ou tenta se aproximar da mãe, ora se aproxima e depois se afasta do pai e, finalmente, temendo a castração, abdica de estar com a mãe e interioriza as características do pai como um exemplo a ser seguido para ter sucesso em suas conquistas amorosas futuras.

Quando nos tornamos adultos e buscamos um relacionamento afetivo, ainda no caso de um menino com Édipo direto, o que entra em cena, é a busca por uma mulher que de certa forma reúnas as características da mãe. Ou seja, um garoto que teve uma mãe forte, que lutou pela sobrevivência da família e cuidou dos filhos com afinco, buscará na parceira estas mesmas características, desejando ser amparado pela esposa da mesma forma que era quando estava sob os cuidados de sua mãe.

Ao entrar em contato com mulheres que se adequam a este perfil este homem se sentirá atraído por este tipo de mulheres, pois as valoriza enquanto pessoas. Já mulheres que fogem deste perfil provavelmente causarão repulsa a este homem. Isso será aplicado a quem ele escolherá como parceira e também será estendido às demais mulheres que farão parte de seu círculo de amizades e dos demais círculos sociais nos quais ele vive. Daí, por exemplo, este indivíduo valorizar uma chefe que luta para chegar onde chegou e desdenhar outra que ao seu ver apenas teve o cargo jogado em seu colo.

Já com relação aos homens que fazem parte do círculo de relações desta pessoa, é provável que ele valorize pessoas que tem características que são distantes das de seu pai, pois ele representa um rival a ser copiado, mas com quem ele não deseja conviver novamente e ser protelado por aquelas mulheres que ele deseja conquistar. Se seu pai foi, por exemplo, uma figura castradora é provável que ele acabe por desenvolver uma certa dose de rejeição a chefes que ostentem as mesmas características.

É claro que estou falando apenas de uma faceta definível de um ser humano com base em seu Complexo de Édipo e que é possível que esta pessoa possa apresentar características totalmente diferentes da que mostrei acima. Mas o fato notável é que conhecendo os pais de alguém se torna muito fácil elencar algumas possibilidades de comportamento de uma pessoa, seja através da aceitação das características paternas, seja através de uma formação reativa a estas impressões cristalizadas pela criança.

Na busca por tais características e tendo por base a negociação feita pelo Ego com o Id e o Superego do indivíduo, veremos a busca adulta por estes parâmetros de relacionamentos expressas na conformação das neuroses de um indivíduo e, através delas, veremos em ação alguns mecanismos de defesa, como, por exemplo, o deslocamento onde percebemos nos outros aquilo que detestamos em nós, ou então o indivíduo passa a exercer a projeção, vendo nos outros as características que gostaria de poder ter. O que não muda é a notória necessidade de agradar ou não agradar alguém na medida que este alguém reforça nossa fantasia introjetada do Édipo.

Lacan diz que o nosso desejo é o desejo de nos transformarmos no desejo do Outro e devemos entender este Outro, mesmo projetados em nosso companheiro ou companheira, em amigos ou colegas de trabalho, como sendo a primeira figura que amamos, ou seja, nossa mãe. Sob a capa de nossas neuroses, operando mecanismos de defesa dos mais simples aos mais sofisticados, todos nós só queremos mesmo é preencher um vazio deixado pela perda daquilo que mais amamos e que se expressa de maneira brilhante em nosso Complexo de Édipo.

© – 2015 – Roberto Paes
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