O mundo conspira contra nós?

conflito

Existem pessoas que não se cansam de dizer que tudo o que lhes acontece é única e exclusivamente culpa do mundo. Ela não queria ser abandonada pelo parceiro, ser despejada do apartamento, perder o emprego lucrativo. Ou seja, ela não passa de uma vítima.

Tá certo que algumas das coisas que nos acontecem são obra do acaso, ou da conjuntura econômica ou, simplesmente, não deveriam ter dado certo. Mas quando a frequência de fracassos supera de longe a quantidade de acertos e você tem a impressão de que uma nuvem negra paira sob sua cabeça, não é produtivo recorrer à vitimização. Na maioria dos casos de pessoas assim que recorrem à Psicanálise, acabamos por descobrir que quem conspira contra a pessoa é ela mesmo.

O que eu estou querendo dizer é que podemos nos tornar atraentes para as fatalidades ou que até mesmo buscamos estes contratempos na medida em que, inconscientemente não nos achamos bons o suficiente para encontrarmos alguém que se apaixone por nós, para merecer aquele ótimo emprego e as promoções que o acompanham, entre outras coisas, que, fatalmente, nos tornariam pessoas felizes. Ou seja, nós procuramos a nossa própria infelicidade.

Freud, quando criou seus primeiros estudos sobre o que viria a chamar de psicanálise e que, mais tarde, foram agrupados no que chamamos de “primeira tópica” imaginava um ser humano orientado para o prazer e que faria o que fosse necessário para escapar do desprazer. Ele imaginava que o indivíduo era orientado para a felicidade. Só algum tempo depois ele passou a perceber que algumas pessoas eram capazes de obter prazer por outros meios que não os considerados por todos normais. Foi então que ele começou a rever seus conceitos e criou os termos Pulsão de Morte, Perversão, Sadismo e Masoquismo, entre outros.

Pode parecer curioso, ou até mesmo maluco, imaginar que alguém encontre prazer em fazer mal a si mesmo. Porém, se adicionarmos a esta equação duas variáveis: culpa e punição, fica fácil entender porque alguém colabora contra si mesmo. Ou seja, me destruindo eu estarei me punindo por algo que eu acredito ter feito de errado e através desta punição eu encontrarei prazer em minha existência, uma maneira até mesmo perversa de se viver.

Diante disso é bastante simples deixar de ser um auto sabotador, não é? Nem tanto porque, muitas vezes, as pessoas não estão se punindo por algo que fizeram há uma ou duas semanas, mas sim por pensamentos e atitudes que tiveram e tomaram durante a infância e, para ser mais exato, durante o período em que entraram e saíram do Complexo de Édipo, um momento crucial para a consolidação do Superego e a cristalização do Ideal do Eu. Ou seja, formamos o arcabouço de regras e códigos morais que nos definem enquanto ser social.

E, neste sentido, inconscientemente, nós nos sentimos culpados. Primeiramente por termos desejado incestuosamente pai ou mãe, depois por ter desejado que aquele que se tornou nosso rival na disputa incestuosa morresse, mais tarde nos sentimos culpados por desejar alguém do mesmo sexo, por optar por uma religiosidade diferente da de nossos pais, por não querer seguir a mesma linha de carreira da família e assim por diante. O que eu quero dizer é que motivos não faltam para nos sentirmos culpados.

E, falando novamente em inconsciente, dependendo da força com que os desejos que contrariam o nosso Ideal do Eu insistem em se manifestar surge também a necessidade de punição. Algo como a “expiação” dos pecados praticada pela grande maioria das congregações religiosas. Porém, quanto mais rígido o Superego, mais rígida deve ser a punição e, para alguns casos, algumas Ave-marias não são o suficiente para redimir o “pecador”. Então, o preço que se paga é condenar-se à destruição.

Em grande parte dos casos, o que a psicanálise promove é a diminuição da incidência do Superego sobre o indivíduo. Tenta-se, como Jacques Lacan preconiza, fazer com que a pessoa diminua a incidência do Outro sobre ela, procura-se fazer com que ela perceba que suas opções, desde que não prejudiquem outro ser humano, são válidas para ela e não são motivo de condenação. O que procuramos é fazer com que a pessoa venha a perceber que existe um Eu ideal, aquele formado por quem nós realmente desejamos ser, que deve ser contraposto e balanceado com o Ideal do Eu que nos impuseram. Com isso diminuem as cobranças, abranda-se a culpa e, consequentemente, desaparece a vontade que se sente em buscar punição.

Colocar-se no papel de vítima das circunstâncias é na verdade um mecanismo usado por nós para que não possamos perceber o que estamos fazendo a nós mesmos. É como buscar uma causa para a doença onde ela não está e, portanto, nos vemos impedidos de curá-la. Vitimizar-se faz parte do mecanismo masoquista que sustenta a necessidade que sentimos de nos destruir, lentamente, incessantemente. Para purgar uma culpa que, se prestarmos atenção, sequer deveria existir.

© – 2015 – Roberto Paes
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