Como conciliar trabalho e família?

conciliar trabalho e família

Por Isabel Galdino

 

No  filme  “O Diabo Veste Prada” ( 2006)[1] o  braço direito de Miranda Priestly (Meryl Streep) , Nigel (Stanley Tucci) , comenta com a protagonista, Andrea Sachs(Anne Hathaway ) que “você sabe quando está em ascensão profissional quando sua vida pessoal vira pó”. A família, seja a de origem, ou a constituída, exige algo que realmente encontra-se indisponível para toda pessoa em idade ativa: Tempo. O trabalho, hoje em dia, exige extrema dedicação, e não se restringe a horários pré – determinados. Trabalho e família são núcleos potenciais para determinar felicidade, e criatividade.  Como satisfazer a necessidades tão essenciais como sucesso profissional e compromissos familiares ?

No século XIX, Karl Marx preconizou a alienação do homem através do produto que produzia, hoje, século XXI, o ser humano é o produto. Ele se vende no mercado como se seu papel sócio–econômico representasse sua identidade. Surge, então, um interesse desenfreado para ter um emprego que pague um salário suficiente para pagar as contas, e manter uma imagem pública de pessoa realizada. Muitos são os que exibem nas redes sociais roupas, viagens, lugares e  não-lugares que representam um excelente saldo bancário.  Outros ainda vão mais longe, e procuram ostentar uma felicidade familiar que não condiz com a realidade. Tudo para convencer como pessoa de sucesso, e que é capaz de assumir cargos e/ou posições mais privilegiadas no trabalho. Mas qual o resultado destas atitudes?

Os tempos são outros, e são outros paradigmas. Há uma nova arquitetura redirecionando velhos papéis, e novos papéis sendo criados e estruturados por novas tecnologias. Embora as emoções com relação à família conserve certo Dejá vi,trata-se de um novo momento, e não se consegue reproduzir o passado, nem evitá-lo totalmente. É preciso muita análise para resolver os problemas, pois com a mudança de paradigmas muitas soluções do passado não são eficazes se aplicadas nos dias de hoje. É trabalhoso. Mas nenhum ser está imune: a angústia da correria diária; ao estresse do cotidiano; a ansiedade do que tem a fazer, ou do que pretende realizar; a fobia do desconhecido; ao medo de fazer o que gosta e não dar certo; a depressão que representa a maior taxa de afastamento do trabalho, nos dias hoje.

O homem tendo alienado sua personalidade acaba perdendo grande parte do sentimento de dignidade, do sentimento de si mesmo, como entidade única. Muitos voltam para casa como moídos por um moinho de vento, como repassados por um rolo compressor. Não satisfeitos com a finalização do seu dia, descarrega na família suas angústias e apreensões. Para Erich Fromm [ 2 ]  o homem jamais será um meio para um fim, pois ele é um fim.Tudo que o ser humano cria deveria servi-lo,e não fazê-lo servo; deveria estar condicionado à ele, mas ele não deveria condicionar sua existência a estas criações.

O ser humano, na realidade necessita de coisas muito simples e básicas para viver. Depende de cada um o saber desconstruir paradigmas e revisar seus valores, não permitindo determinados condicionantes em sua vida.Partir para ações mais condizentes com sua disponibilidade individual, e familiar, sem a preocupação de ser totalmente moderno ou totalmente arcaico.

Alguém já falou que “a linha do meio “ é a ideal. É preciso ter um novo olhar sobre a realidade social e pessoal. Por mais que esta sociedade tecnológica tente moldar a vida para um consumismo desenfreado, ninguém é espectador de sua própria vida.  Alguns setores podem ser modificados ou readaptados de forma a tornar a vida em família menos difusa e onerosa.

O tempo que o indivíduo dedica ao seu emprego, também pode ser reavaliado. Desde os primórdios o homem transforma ferramentas úteis para sua vida em armas destrutíveis, e assim  faz, com as novas tecnologias.. É preciso fazer arranjos construtivos. Não há problema em ver seus filhos pequenos através de uma tela, em casa com a babá, ou na escolinha; acompanhar o dia a dia  de seu par, e do filho(a) adolescente pelo whatsapp; resolver algumas prioridades domésticas pela internet. Porém, e preciso criar um tempo familiar presencial de qualidade, e procurar perceber se este tempo é o suficiente para todos. Não há fuga do que não se pode prescindir: Viver a vida.

É preciso abandonar preconceitos, e resistências. As diversas tarefas da vida diária consomem tempo e energia, levando o ser humano a se afastar principalmente de si mesmo, e de pessoas e fatos que realmente importam. Considero essencial para todo ser humano fazer terapia. A Psicanálise Integrativa, por exemplo, segundo explica Fátima Mora[4],se utiliza de inúmeras técnicas para a abordagem do inconsciente, o que abrevia  substancialmente o tempo de tratamento.  Ninguém precisa deixar sua vida pessoal “virar pó”.  Procurar ajuda é um ato de coragem, e extremamente significativo para quem deseja uma vida equilibrada, pautada na harmonia familiar e profissional.

[1] O filme O Diabo Veste Prada é uma adaptação cinematográfica do bestseller literário de 2003 de Lauren Weisberger com o mesmo título dirigido por  David Frankel

[2] FROMM,Erich, Psicanálise da Sociedade contemporânea.

[4] Fátima Mora é psicanalista, professora e diretora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa.

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