Cobiça e inveja: o que a psicanálise tem a dizer sobre elas?

Quem nunca sentiu uma vontade incontrolável de possuir aquilo que é do outro, ou uma estranha alegria em ver outra pessoa se dar mal, certamente está mentindo. Embora sejam sentimentos considerados indignos, a cobiça e inveja são inerentes ao ser humano.

Isso mesmo! Apesar da dificuldade de assumir, todas as pessoas sentem inveja. O que muda em cada indivíduo é quanta inveja sentimos e o que fazemos para lidar com ela. Segundo especialistas, em uma época primitiva, a inveja foi um mecanismo importante, que contribuiu significativamente para a evolução da nossa espécie. Continue a leitura deste artigo e saiba mais sobre ela e sobre a cobiça.

Cobiça e inveja são diferentes?

Sim. Para a psicanálise, a inveja é a intensificação do ódio, causada pela pulsão de morte que se volta contra o próprio invejoso. Esse sentimento que faz parte do ser humano desde o seu nascimento é potencializado quando a pessoa se sente desestabilizada devido a um complexo de inferioridade em relação ao outro. O impulso da pessoa invejosa é tomar ou estragar aquilo que lhe falta.

Já a cobiça é o desejo de possuir aquilo que o outro tem, sem que isso lhe cause tristeza. O cobiçador não precisa ver a destruição ou o prejuízo do cobiçado e, em muitas situações, esse sentimento serve como mola propulsora para que o indivíduo vá em busca do que deseja. Cobiçadores e invejosos se comportam de maneira parecida. Ambos admiram, desejam ou imitam o que o outro tem ou é. Porém, na cobiça não existe a parte destrutiva da inveja.

Quando a inveja começa?

De acordo com a psicanalista austríaca Melanie Klein (1964), ainda bebê, durante a amamentação, a criança já apresenta um sentimento que ela chamou de “Inveja do Seio”. Segundo essa teoria, o recém-nascido não aceita que seu alimento venha de outro ser e que ele precise estabelecer com a mãe uma relação de dependência.

Para o psicanalista César Brito, quando o bebê entende que o leite que necessita para se alimentar não pode ser produzido por ele mesmo, sua força primitiva aciona o sentimento de inveja e a reação inicial da criança é rejeitar ou destruir a frustração.

Quais as consequências da inveja?

Klein explica que a inveja não está relacionada à decepção ou frustração. Ela é parte da vida psíquica do ser e se fundamenta no ódio consciente ou inconsciente por causa de suas faltas ou falhas.

A mente de uma pessoa invejosa está sempre nutrida de pensamentos de inutilidade e incapacidade de conseguir aquilo que lhe falta. Essa situação gera o distanciamento do contato interior, pois em vez de dar valor àquilo que é ou que possui, no íntimo do invejoso predominam o ódio e a repulsa.

Em situações intensas, cobiça e inveja comprometem o equilíbrio emocional e abalam as relações interpessoais do ser. Admitir que existem dentro de si sentimentos como a cobiça e inveja é o mesmo que romper com as influências compulsivas para se abrir ao caminho do crescimento.

Assim sendo, o indivíduo pode passar a vida na autodepreciação ou, ao ver as conquistas alheias, se encher de coragem e vigor para ir em busca do seu objeto de desejo.

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2 comentários para este post
  1. Uma ótima diferenciação, que ajudará muito ao lidar com alguns pacientes que apresentam esta dificuldade do que eu chamo de “Ultra-inveja”.
    Uma curiosidade: Quando a pessoa não apresenta inveja (ao menos conscientemente), pode-se considerar como se ela não desse valor ao outro?

  2. MUITO OBRIGADA PELOS ARTIGOS!

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